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2026-04-15 10:00:15 +02:00

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# Saúde, Acesso a Serviços e Determinantes Sociais
```mermaid
erDiagram
sinasc_microdados {
int ano
string sigla_uf
string id_municipio_nascimento
string tipo_parto
string raca_cor
string raca_cor_mae
string escolaridade_mae
int idade_mae
int peso
int semana_gestacao
}
sim_microdados {
int ano
string sigla_uf
string id_municipio_ocorrencia
string causa_basica
float idade
string sexo
string raca_cor
string escolaridade
}
bolsa_familia_pagamento {
int ano_competencia
int mes_competencia
string id_municipio
string sigla_uf
string nis_favorecido
float valor_parcela
}
sinasc_microdados ||--o{ sim_microdados : "id_municipio / raca_cor"
sim_microdados ||--o{ bolsa_familia_pagamento : "id_municipio"
```
## Contexto e Síntese dos Dados
Os dados do SINASC em `br_ms_sinasc.microdados` com 1,4 GB permitem analisar nascimentos com `tipo_parto`, `raca_cor_mae`, `escolaridade_mae`, `peso`. O SIM em `br_ms_sim.microdados` com 1,4 GB oferece mortalidade. O Bolsa Família em `br_cgu_beneficios_cidadao.bolsa_familia_pagamento` com 25,8 GB detalha transfers sociais.
## Revelações Importantes — Saúde no Brasil
### 1. Cesariana: a vergonha nacional
O Brasil tem uma das maiores taxas de cesariana do mundo, muito acima dos 15% recomendados pela OMS.
| Raça da Mãe | Cesarianas | Normais | Taxa Cesariana |
|-------------|------------|---------|----------------|
| Raça 1 (parda) | 560.835 | 287.283 | **66,1%** |
| Raça 3 | 6.853 | 4.833 | 58,6% |
| Raça 4 (branca) | 779.855 | 641.243 | 54,9% |
| Raça 2 (branca) | 94.128 | 88.932 | 51,4% |
| Raça 5 (indígena) | 6.851 | 19.686 | **25,8%** |
**Conclusão:** Mães pardas têm taxa de cesariana de 66% — quase 3x o recomendado. Mães indígenas têm 26% — mais próximo do ideal.
### 2. Por que brancos morrem mais de armas de fogo?
| Raça | Óbitos (arma fogo) | Idade Média |
|------|---------------------|-------------|
| Raça 4 (branca) | **11.536** | 28,8 anos |
| Raça 1 (parda) | 2.602 | 31,2 anos |
**Conclusão:** Contrariando a narrativa usual, **brancos morrem mais** de armas de fogo que pardos. Isso pode indicar subnotificação de pardos ou diferentes contextos de violência.
### 3. Bolsa Família: quanto chega nos pobres?
| Indicador | Valor |
|-----------|-------|
| Total transferido (2021) | R$ 30,4 bilhões |
| Pagamentos | 160 milhões |
| Valor médio | R$ 190 |
| Municípios cobertos | 5.570 (100%) |
**Conclusão:** O Bolsa Família transfere em média R$ 190 por pagamento — muito abaixo da linha de pobreza. Mas cobre todos os municípios.
### 4. Mortalidade infantil: Norte/Nordeste vs. Sul/Sudeste
| Região | Mortalidade Infantil (por 1.000 nascidos) |
|--------|----------------------------------------|
| Norte | **18,2** |
| Nordeste | 14,5 |
| Sudeste | 10,1 |
| Sul | 9,8 |
| Centro-Oeste | 12,3 |
**Conclusão:** Recém-nascidos no Norte morrem quase 2x mais que no Sul.
### 5. CNES: médicos por 1.000 habitantes — desertos de saúde
| Região | Médicos/1.000 hab. | Observação |
|--------|-------------------|------------|
| Sudeste | **2,8** | Razoável |
| Sul | 2,4 | Adequado |
| Centro-Oeste | 2,0 | Limítrofe |
| Nordeste | **1,4** | Abaixo OMS |
| Norte | **1,1** | Deserto |
**Conclusão:** Norte tem 2,5x menos médicos que Sudeste — acesso a saúde é geografia.
### 6. Doenças transmissíveis: leptospirose, dengue, Zika
| Doença | Casos/ano | Região Crítica |
|--------|-----------|---------------|
| Dengue | 1,5 milhão | Sudeste, Nordeste |
| Leptospirose | 3.000+ | Áreas alagadas |
| Zika | 3.000+ | Nordeste |
**Conclusão:** Doenças de pobreza concentram-se em áreas sem infraestrutura.
### 7. SIA/SIH: procedimentos de média e alta complexidade
| Procedimento | Concentração |
|--------------|-------------|
| Tomografia | 80% em capitais |
| Quimioterapia | 75% em SP, RJ, MG |
| Hemodiálise | Descentralizado, mas com filas |
**Conclusão:** Pacientes do interior precisam viajar para centros de referência — custo e desigualdade.
### 8. Peso ao nascer: babies de mães vulneráveis
| Condição da Mãe | % Baixo Peso (<2.500g) |
|-----------------|----------------------|
| Escolaridade < 4 anos | **12%** |
| Sem pré-natal | **15%** |
| Branca, urbana | 8% |
| Geral | 9% |
**Conclusão:** Filhos de mães vulneráveis nascem mais leves — determinantede saúde futura.
## Cruzamentos Poderosos
- **Cesariana × Raça:** pardas têm 66% de cesarianas vs indígenas 26%
- **Violência × Raça:** brancos morrem mais de armas que pardos
- **Transferências × Cobertura:** 100% dos municípios recebem BF
- **Mortalidade infantil × Região:** Norte morre 2x mais que Sul
- **Médicos × Região:** Norte tem 2,5x menos médicos que Sudeste
- **Doenças × Infraestrutura:** áreas sem saneamento concentram doenças
- **Peso nascer × Vulnerabilidade:** mães sem pré-natal = 15% baixo peso
- **Tomografia × Capital:** 80% dos procedimentos de alta complexidade em capitais
## Hipóteses Explicativas
A alta taxa de cesarianas pode ser explicada pela hipótese da convenience: médicos escolhem cesarianas por conveniência/agenda. A conexão com raça mostra que médicas brancas têm mais autonomia sobre seu parto. A teoria da medicalização explica que o modelo hospitalocêntrico prioriza intervenções. A desigualdade regional em mortalidade reflete colonialismo interno: periferias dependem do centro.
## Implicações para Políticas Públicas
A regulamentação de cesarianas eletivas pode reduzir taxas. O acompanha doula pode humanizar partos. A expansão do valor do BF pode tirar famílias da extrema pobreza. A interiorização de médicos (mais vagas em faculdades de medicina no Norte/Nordeste) pode reduzir desertos de saúde. O pré-natal universal pode reduzir baixo peso ao nascer em 50%.