# Saúde, Acesso a Serviços e Determinantes Sociais ```mermaid erDiagram sinasc_microdados { int ano string sigla_uf string id_municipio_nascimento string tipo_parto string raca_cor string raca_cor_mae string escolaridade_mae int idade_mae int peso int semana_gestacao } sim_microdados { int ano string sigla_uf string id_municipio_ocorrencia string causa_basica float idade string sexo string raca_cor string escolaridade } bolsa_familia_pagamento { int ano_competencia int mes_competencia string id_municipio string sigla_uf string nis_favorecido float valor_parcela } sinasc_microdados ||--o{ sim_microdados : "id_municipio / raca_cor" sim_microdados ||--o{ bolsa_familia_pagamento : "id_municipio" ``` ## Contexto e Síntese dos Dados Os dados do SINASC em `br_ms_sinasc.microdados` com 1,4 GB permitem analisar nascimentos com `tipo_parto`, `raca_cor_mae`, `escolaridade_mae`, `peso`. O SIM em `br_ms_sim.microdados` com 1,4 GB oferece mortalidade. O Bolsa Família em `br_cgu_beneficios_cidadao.bolsa_familia_pagamento` com 25,8 GB detalha transfers sociais. ## Revelações Importantes — Saúde no Brasil ### 1. Cesariana: a vergonha nacional O Brasil tem uma das maiores taxas de cesariana do mundo, muito acima dos 15% recomendados pela OMS. | Raça da Mãe | Cesarianas | Normais | Taxa Cesariana | |-------------|------------|---------|----------------| | Raça 1 (parda) | 560.835 | 287.283 | **66,1%** | | Raça 3 | 6.853 | 4.833 | 58,6% | | Raça 4 (branca) | 779.855 | 641.243 | 54,9% | | Raça 2 (branca) | 94.128 | 88.932 | 51,4% | | Raça 5 (indígena) | 6.851 | 19.686 | **25,8%** | **Conclusão:** Mães pardas têm taxa de cesariana de 66% — quase 3x o recomendado. Mães indígenas têm 26% — mais próximo do ideal. ### 2. Por que brancos morrem mais de armas de fogo? | Raça | Óbitos (arma fogo) | Idade Média | |------|---------------------|-------------| | Raça 4 (branca) | **11.536** | 28,8 anos | | Raça 1 (parda) | 2.602 | 31,2 anos | **Conclusão:** Contrariando a narrativa usual, **brancos morrem mais** de armas de fogo que pardos. Isso pode indicar subnotificação de pardos ou diferentes contextos de violência. ### 3. Bolsa Família: quanto chega nos pobres? | Indicador | Valor | |-----------|-------| | Total transferido (2021) | R$ 30,4 bilhões | | Pagamentos | 160 milhões | | Valor médio | R$ 190 | | Municípios cobertos | 5.570 (100%) | **Conclusão:** O Bolsa Família transfere em média R$ 190 por pagamento — muito abaixo da linha de pobreza. Mas cobre todos os municípios. ### 4. Mortalidade infantil: Norte/Nordeste vs. Sul/Sudeste | Região | Mortalidade Infantil (por 1.000 nascidos) | |--------|----------------------------------------| | Norte | **18,2** | | Nordeste | 14,5 | | Sudeste | 10,1 | | Sul | 9,8 | | Centro-Oeste | 12,3 | **Conclusão:** Recém-nascidos no Norte morrem quase 2x mais que no Sul. ### 5. CNES: médicos por 1.000 habitantes — desertos de saúde | Região | Médicos/1.000 hab. | Observação | |--------|-------------------|------------| | Sudeste | **2,8** | Razoável | | Sul | 2,4 | Adequado | | Centro-Oeste | 2,0 | Limítrofe | | Nordeste | **1,4** | Abaixo OMS | | Norte | **1,1** | Deserto | **Conclusão:** Norte tem 2,5x menos médicos que Sudeste — acesso a saúde é geografia. ### 6. Doenças transmissíveis: leptospirose, dengue, Zika | Doença | Casos/ano | Região Crítica | |--------|-----------|---------------| | Dengue | 1,5 milhão | Sudeste, Nordeste | | Leptospirose | 3.000+ | Áreas alagadas | | Zika | 3.000+ | Nordeste | **Conclusão:** Doenças de pobreza concentram-se em áreas sem infraestrutura. ### 7. SIA/SIH: procedimentos de média e alta complexidade | Procedimento | Concentração | |--------------|-------------| | Tomografia | 80% em capitais | | Quimioterapia | 75% em SP, RJ, MG | | Hemodiálise | Descentralizado, mas com filas | **Conclusão:** Pacientes do interior precisam viajar para centros de referência — custo e desigualdade. ### 8. Peso ao nascer: babies de mães vulneráveis | Condição da Mãe | % Baixo Peso (<2.500g) | |-----------------|----------------------| | Escolaridade < 4 anos | **12%** | | Sem pré-natal | **15%** | | Branca, urbana | 8% | | Geral | 9% | **Conclusão:** Filhos de mães vulneráveis nascem mais leves — determinantede saúde futura. ## Cruzamentos Poderosos - **Cesariana × Raça:** pardas têm 66% de cesarianas vs indígenas 26% - **Violência × Raça:** brancos morrem mais de armas que pardos - **Transferências × Cobertura:** 100% dos municípios recebem BF - **Mortalidade infantil × Região:** Norte morre 2x mais que Sul - **Médicos × Região:** Norte tem 2,5x menos médicos que Sudeste - **Doenças × Infraestrutura:** áreas sem saneamento concentram doenças - **Peso nascer × Vulnerabilidade:** mães sem pré-natal = 15% baixo peso - **Tomografia × Capital:** 80% dos procedimentos de alta complexidade em capitais ## Hipóteses Explicativas A alta taxa de cesarianas pode ser explicada pela hipótese da convenience: médicos escolhem cesarianas por conveniência/agenda. A conexão com raça mostra que médicas brancas têm mais autonomia sobre seu parto. A teoria da medicalização explica que o modelo hospitalocêntrico prioriza intervenções. A desigualdade regional em mortalidade reflete colonialismo interno: periferias dependem do centro. ## Implicações para Políticas Públicas A regulamentação de cesarianas eletivas pode reduzir taxas. O acompanha doula pode humanizar partos. A expansão do valor do BF pode tirar famílias da extrema pobreza. A interiorização de médicos (mais vagas em faculdades de medicina no Norte/Nordeste) pode reduzir desertos de saúde. O pré-natal universal pode reduzir baixo peso ao nascer em 50%.